Torcedores de Ceará e Fortaleza descrevem saudade após um ano sem frequentar estádios; veja relatos – Jogada – Jornal Notícias do Ceará

O triunfo do Ceará por 1 a 0 sobre o Vitória pela 3ª fase da Copa do Brasil 2020, na Arena Castelão, completa um ano nesta sexta-feira (12). Porém, diante da felicidade pelo resultado, poucos imaginavam que aquele seria o último duelo com torcida nas arquibancadas cearenses pelos próximos meses.

Na semana seguinte, o Estado entrou em estado de emergência de Saúde Pública diante dos primeiros casos de Covid-19, assustando a população em meio a um rígido isolamento social que seria declarado em maio.

As partidas de futebol retornaram apenas no começo de julho, mas sem as milhares de pessoas no estádio. Adaptar-se financeiramente na crise esportiva foi um desafio para os clubes sem a grande fonte de renda da venda de ingressos e, acima de tudo, pelo calor emanado das apaixonantes torcida do Ceará e do Fortaleza.

O Diário do Nordeste conversou com dois casais (um alvinegro e um tricolor) sobre as mudanças em suas vidas de torcedores mudaram durante a pandemia e as expectativas para voltar a lotar as arquibancadas.

Saudade alvinegra

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Arquivo Pessoal

Antes do amor florescer, uma paixão em comum aproximou os autônomos Thalia Sombra e Davi Simonetti: o sentimento que o Ceará trazia aos dois. Os corações alvinegros logo se uniram nos primeiros meses do isolamento social e a relação se fortaleceu entre as famílias alvinegras.

Acompanhar as partidas do Alvinegro virou rotina quando o esporte retornou, ajudando a estreitar os laços de quem antes só compartilhava os sentimentos pelas redes sociais.

“Quando comecei a frequentar a casa dele, tinha uma história com meus amigos de que eu era pé frio e levavam na brincadeira, mas o pai dele levou a sério. Quando eu não via, o Ceará ganhava. Mas isso passou. Quando posso, vejo junto com eles. Foi uma das coisas que nos aproximou”, revelou a jovem.

O hábito de frequentar o Castelão havia aumentando nos anos anteriores para Thalia. O choque dessa quebra em 2020 foi forte para seu antigo refúgio da estudante.

“Eu sempre ia depois da aula ou matava aula para ir, porque estudo à noite. Era meu momento para desopilar, algo especial. Sempre chamava amigos ou ia com meu pai. Teve jogos que a família toda foi. Sempre levei pessoas que nunca tinham ido para o estádio. 2018 e 2019 foram os que mais fui. 2020 estava muito animada para ir periodicamente e fiquei triste por causa da pandemia. Foi doloroso”, lamentou Thalia.

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Davi acompanhava o time de perto desde criança com o pai e a irmã. A falta da vibração nas arquibancadas, segundo ele, prejudicou o desempenho do Ceará em campo na temporada passada, em que ficou próximo da vaga na Libertadores.

“Começou o ano não tão bem e não levantou minhas expectativas. Quando chegou no final, com a possibilidade de Libertadores, fiquei completamente iludido com a esperança. Eu tenho uma relação com o time muito comum: ou 8 ou 80. Foi um ano de muitos altos e baixos. Adoraria ter acompanhado isso de perto. Apesar do ano histórico, ficou aquele gostinho de ‘foi quase’. A campanha dentro de casa foi ruim e pensamos se o time seria diferente com a torcida”, comentou Davi. “Eu não saía tanto de casa e a única coisa que fugia desse padrão era ir pra estádio lotado e pular, gritar, discutir, abraçar estranho”, completou.

O casal planeja fazer o plano de sócio-torcedor quando os duelos voltarem a receber público para criar um hábito de sempre acompanharem juntos à torcida.

“Se a vacina estiver encaminhada e for possível ir com responsabilidade, queremos aproveitar ao máximo porque serão dois anos de ansiedade”, explicou Thalia.

Saudade tricolor

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O amor pelo Fortaleza foi também o que aproximou a estudante Ana Beatriz Nobre do cirurgião-dentista Ícaro Girão no fim de 2019. O lado torcedor de cada um se completou para firmar o começo do relacionamento dias antes do isolamento ser decretado.

“Não era muito ativo mas sempre fui Fortaleza porque um tio me levou quando o time tava no auge na Série A. Toda minha família é Ceará e eu era Fortaleza, batendo de frente. Eu era do interior e não vinha tanto para o estádio. E antes da pandemia, quando conheci a Bia e ela disse que era apaixonada pelo clube, vi que tínhamos algo em comum e começou a aflorar esse meu lado torcedor. Foi uma rotina nossa vermos os jogos juntos na pandemia”, comentou Ícaro.

A relação da companheira era diferente com o time, sempre intensa nas cobranças e nas comemorações.

“Fortaleza é minha paixão desde que me entendo por gente. Desde 2009 vou ativamente aos jogos. Quando não dava, via pela televisão, ou pela rádio. É o time da minha família. Sou aquela torcedora que chora, fui para todas as partidas da Série C. Sou uma torcedora raiz”, afirmou Beatriz.

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Arquivo Pessoal

O casal passou o isolamento junto no aguardo da volta dos jogos no estado. Porém, a sensação de torcer para uma televisão não chega nem perto da potência em uníssono com a massa tricolor lotando o Castelão.

“Quando os jogos voltaram, foi uma válvula de escape. Pelo menos uma vez na semana vamos ver um jogo. Pela TV é muito diferente porque sou acostumada com o estádio. Não tem o chão tremendo, camisa rodando, perrengue para entrar e sair. Em muitos jogos, percebemos que isso fez falta ao time. Em casa, fico com vontade de quebrar a TV”, disse a jovem.

Tanto para o casal alvinegro quanto para o tricolor, a reinvenção da forma como os clubes se aproximam do torcedor mudou para melhor, principalmente com a evolução do departamento de marketing de ambos.

“Os times se reinventaram e se aproximaram do torcedor. O Fortaleza já era bem estruturado em relação a isso e manteve a mesma pegada”, disse Beatriz. “O Ceará melhorou muito nas redes sociais nesse período”, também pontuou Thalia.

Nova paralisação?

Com o novo lockdown no estado, as partidas do Estadual foram canceladas, mas não as da Copa do Brasil e da Copa do Nordeste. Há dois dias seguidos o Brasil vêm batendo mais de 2 mil óbitos por dia pela crescente da doença. Para os dois casais, o momento pede novamente pela paralisação do futebol.

“Pelo lockdown, de jeito nenhum deveria ter porque acho que está pior do que na 1ª onda. Sabemos que tem pressão do clube mesmo pelas despesas, mas, do ponto de vista da pandemia, é absurdo ainda ter jogo até porque não é só o jogo em si. Vão ter reuniões para ver o jogo”, afirmou Davi, como concordada pela companheira.

“Toda a estrutura demandada para um jogo acontecer acaba sendo prejudicial a todos os funcionários que precisam se deslocar e trabalhar lá. Desde os que trabalham no estádio, a equipe do time, os próprios jornalistas, estão se colocando em risco para fazer aquilo acontecer. Por mais que o futebol seja um alívio para nós em isolamento, acaba sendo prejudicial em um âmbito maior. Quanto mais tentarmos fazer as coisas pela metade, mais vai demorar para retomar tudo como antes. Melhor sacrificar um pouco agora do que, no futuro, demorar mais ainda para voltar”, concluiu Thalia.

“Infelizmente, no momento, deveria ser paralisado. Está fora de controle no nosso estado. O futebol não é tão essencial nesse momento crítico”, ressaltou Beatriz.

O retorno do barulho dos milhares de apaixonados nos estádios brasileiros está longe. Porém, os casais já planejam com ansiedade para matar a saudade.

“Assim que voltar os jogos, ele (Ícaro) prometeu que íamos. Se minha família estiver vacinada, eu volto com 10% ou mais de capacidade no Castelão”, disse a estudante. Já Davi deseja retomar a rotina nas arquibancadas apenas quando toda a capacidade estiver disponível. “Queria ir só quando for estádio cheio. Imagina, 50 mil pessoas… Seria a volta do espetáculo”, concluiu.

 



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Por , em 2021-03-12 09:45:45


Fonte diariodonordeste.verdesmares.com.br

Redação

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