Do Rock in Rio a trilhas de televisão: histórias de quando o rock de Fortaleza foi além das quebradas – Verso – Jornal Notícias do Ceará

Ao longo das décadas, nomes da cena rock de Fortaleza ultrapassaram as fronteiras e chegaram a outros territórios. São bandas com diferentes objetivos artísticos e musicais. Podem estar presentes tanto em grandes festivais, bem como espaços alternativos e até no palco do Luciano Huck.  

Algumas características aproximam estes artistas. Além do caráter autoral, muitos precisaram migrar para o Sudeste para projetar suas carreiras. Um caso notório aconteceu em 1972, quando os músicos Luiz Carlos Porto e Antônio Fernando inscrevem a música “O Pente” no VII Festival Internacional da Canção.  

Esta edição é considerada histórica. Trouxe Raul Seixas (1945-1989), Hermeto Pascoal, Sérgio Sampaio, Renato Teixeira, Alceu Valença, entre outros nomes de peso.  O evento também iluminou a passagem do famoso “Pessoal do Ceará”, com Ednardo, Fagner e Belchior (1946-2017).  

“O Pente” chegou às finais e mesmo sem levar o prêmio garantiu lugar no LP “Os Grandes Sucessos do FIC 72”. A experiência permitiu, três anos depois, Luiz Carlos Porto efetivar o grupo “O Peso” no Rio de Janeiro. 

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LP solo de 1983

“É uma tendência natural do artista querer mostrar o trabalho para um público maior, que se identifique mais com a sua obra”, observa o autor do livro “Fortaleza Sônica – 50 Anos de Rock em Fortaleza”, George Frizzo. Reunindo mais de 150 entrevistas e uma pesquisa de fôlego, a obra inédita investiga o rock na capital cearense entre os anos 1960 e 2000.  

Mesmo com o pouco tempo de atuação, O Peso efetivou seu nome na música nacional. Em 1983, Luiz Carlos Porto lança disco solo homônimo, que contou com produção de Marcelo Sussekind, guitarrista da banda Herva Doce. Com a efervescência do rock nas paradas de sucesso daquela década, O Peso chega a retomar as atividades, porém, sem lançar nada inédito.  

Cena renascida 

Outro sucesso veio com o novo milênio. As rádios no início dos anos 2000 foram tomadas pela turma do O Surto, especialmente pelo hit “A Cera”. O quarteto metade cearense e potiguar contou com a produção de Rick Bonadio, que já era reconhecido por lançar Mamonas Assassinas, Charlie Brown Junior e Los Hermanos.   

Unindo hardcore e surf music, O Surto também é reconhecido até hoje pela apresentação no Rock In Rio (2001). Para uma plateia com mais de 200 mil pessoas, a banda apresentou crias próprias e o famoso cover de “Californication”, do Red Hot Chilli Peppers. Rebatizada para “Triste, mas eu não me queixo”. 

10 anos depois, com outra proposta de mercado, quem esteve presente no mesmo evento foi a Arsenic. Após uma disputa entre mais de 40 mil bandas nacionais inscritas, os cearenses venceram o concurso televisivo “Olha Minha Banda”, do programa Caldeirão do Luciano Huck.  

Durante a votação, a banda foi escolhida pelo próprio Roberto Medina, criador do RIR, e teve a oportunidade de realizar um concerto no palco principal do festival. Com a projeção, o quinteto lançou o disco “O Universo a Nosso Favor” (2013).  

Alternativos 

Ainda segundo George Frizzo, as bandas que saem de fortaleza guardam essa necessidade de expandir o público. O Surto e, principalmente Luiz Carlos Porto se enquadram nessa proposta. “Ele (Luiz), ainda mais. Afinal, é de uma época que Fortaleza ainda era muito provinciana, cabeça fechada”, argumenta.  

A estratégia de procurar ampliar os horizontes, aponta, não chega a ser exclusivo dos artistas cujo trabalho é mais focado no segmento fonográfico dito “mainstream”, onde atuam gravadoras e mídia nacional. “Cada nicho tem seus representantes que também saíram de Fortaleza”. 

Cidadão Instigado, Selvagens à Procura de Lei, Montage, Plastique Noir, Jonnata Doll e os Garotos Solventes, Artur Menezes, Jack the Jocker, Swith Stance, Facada, maquinas, SOH, Dago Red, Mad Monkees, Back Drop Falls, Corja, Astronauta Marinho são alguns do muitos exemplos de grupos cearenses que conseguiram fincar suas trajetórias no cenário independente.   

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Radicado no EUA, Artur Menezes já esteve na programação de eventos importantes da cena blues dos EUA, a exemplo do Crossroads Guitar Festival, idealizado pelo ícone Eric Clapton

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Allison Morgan

Um dos nomes à frente da extinta casa Noise3D, Dado Pinheiro testemunhou diversos artistas da cena local que construíram suas carreiras fora da cidade. Para tanto, o produtor avalia que espaços voltados à circulação dos músicos da cidade é essencial à consolidação de novos artistas do meio sonoro.   

Entre 2004 e 2007, o clube localizado na Praia de Iracema foi casa da nova leva de bandas alternativas dos anos 2000. “Permitiu também o intercâmbio de nomes de outros estados”, avalia o organizador.  

Distâncias 

Nos últimos anos, a opção de produzir e tocar a carreira sem precisar sair de Fortaleza passou a ser uma realidade mais comum. É possível atuar à distância com outros profissionais e organizar apresentações em outras localidades, por exemplo.

Em 2019, o quinteto cearense Jack the Joker conduziu parte da produção do próximo disco em Los Angeles (EUA). “Do ponto de vista geográfico, faz mais sentido Fortaleza ter esse eixo de globalização para Europa e América do que o eixo do Sul. Temos um hub”, reflete o vocalista Raphael Joer.  

Destaques no gênero prog metal, presentes em playlists oficiais das plataformas de streaming, a banda sediada em Fortaleza optou pelo deslocamento para manter a parceria com o produtor brasileiro Adair Daufembach.  

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Baterista Vicente Ferreira durante as sessões de gravação do disco “The Devil to Pay in the Backlands”.

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Raphael Joer

Reconhecido pelo trabalho com Kiko Loureiro (Megadeth), Tony McAlpine, Dirk Verbeuren (Megadeth), Project46 e tantos outros, Daufembach assina a produção dos dois primeiros discos do Jack The Joker: “In The Rabbit Hole” (2014) e “Mors Volta” (2016). 

“The Devil to Pay in the Backlands” segue em fase de pós-produção e tem previsão para chegar em 2022, ano que marca 10 anos de estrada do grupo. “Desde o primeiro projeto ele está conosco. No segundo disco houve uma aproximação maior, ele veio gravar aqui em Fortaleza. Agora, com ele morando em Los Angeles, optamos por aprofundar o processo, de escutarmos o material, de termos outras propostas”, finaliza Raphael Joer. 



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Por , em 2021-11-05 13:00:13


Fonte diariodonordeste.verdesmares.com.br

Redação

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