Inadimplência no Ceará afeta 4 entre 10 famílias; endividados são quase 80% – Negócios – Jornal Notícias do Ceará

Com tudo mais caro, as famílias cearenses estão precisando recorrer a ferramentas como empréstimos, carnê de lojas, cheque especial e cartão de crédito para conseguir fechar as contas no final do mês.

Nesse contexto, 4 entre 10 famílias cearenses estão inadimplentes – 43% delas não conseguem pagar as dívidas em dia.

Além disso, 79,5% das famílias possuíam algum débito em aberto no mês de outubro. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência (Peic), divulgados com exclusividade ao Diário do Nordeste. 

Por mais que o número registrado em outubro no Estado seja de redução frente a setembro, o resultado é 18 pontos percentuais acima do endividamento de outubro de 2019, antes da pandemia.  

O endividamento no Ceará também está bastante acima da média histórica, calculada desde janeiro de 2010. Em média, 63% das famílias cearenses tiveram dívidas em todo o período analisado. 

No Brasil, país com endividamento crônico, o percentual de endividados alcança patamares recordes mês a mês, atingindo em outubro 64,3% das famílias brasileiras. 

Fator surpresa 

O endividamento dos brasileiros tem relação com questões estruturais ligadas à educação financeira, então sempre foi cronicamente elevado. Mas é inegável que a pandemia forçou para cima a quantidade de famílias que precisou tomar crédito. 

“A gente precisa entender que o momento é difícil porque nós estamos em um período de finalização de uma pandemia, com causas e consequências. Esse é um período de consequências, tivemos empresas fechadas, pessoas que perderam empregos e deixaram de honrar com pagamentos”, contextualiza o economista do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Vicente Ferrer. 

Foi o caso da empresária Samara Benvindo, de 49 anos. Ela teve que fechar o ponto comercial da loja de calçados da qual é proprietária e aposta no digital para vender o estoque restante e não sair ainda mais no prejuízo. 

“Eu sofri esse impacto mesmo com a pandemia, porque nós tínhamos a loja e de um dia pro outro vimos ela fechar por força de um decreto que realmente determinava que o comércio deveria parar. E aí nós paramos, mas paramos dentro de um contexto onde as contas não paravam, o aluguel permanecia, o condomínio permanecia, energia permanecia. E isso me trouxe realmente um profundo endividamento”, conta. 

Buscando voltar aos negócios, ela juntou o orçamento doméstico à empresa, apostando todas as fichas em um empreendimento novo, de calçados de luxo para noivas. A concretização desse projeto acabou cancelada após a segunda onda da pandemia, deixando a empresária com R$ 300 mil em dívidas. 

Legenda:
A empresária Samara Benvindo se endividou ao tentar criar um novo negócio

Foto:
Kid Júnior/ SVM

Eu usei as reservas que nós tínhamos ainda de uma pré-pandemia, queimei todas as gorduras que a gente tinha pra investir num projeto que seria pós-pandemia. A segunda onda me pegou em plena obra, a pleno vapor, gastando o que eu já não tinha mais. E, mesmo sem querer, fui forçada a abrir mão de um sonho

Samara Benvindo

Empresária e endividada

Poder de compra 

Não bastasse a perda de renda em razão do desemprego ou da impossibilidade de exercer trabalho informal em razão de medidas sanitárias restritivas, a inflação encolhe o poder de compra do brasileiro

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) já acumula alta de 11,34% nos últimos 12 meses, considerando dados até outubro. A corrosão do poder de compra do consumidor faz com que a tomada de crédito seja necessária mesmo para o consumo de itens básicos. 

A economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Izis Ferreira, explica que esse é um dos motivos de o endividamento seguir em trajetória de alta mesmo com o aumento dos juros. 

“As pessoas não estão conseguindo chegar até o fim do mês com o salário, a inflação alta está tirando espaço desse orçamento”, destaca. Ela também chama atenção que os brasileiros estão precisando de prazos maiores para conseguir quitar os débitos, apostando no parcelamento para não cair na inadimplência. 

A especialista reitera que a inflação deve continuar pressionando o poder de compra dos brasileiros durante 2022, de forma disseminada na maioria dos produtos. Esse fator deve colaborar para manter os índices de endividamento ainda em um patamar alto.  

Vicente Férrer aponta que um alto grau de endividamento prejudica a economia brasileira, o que reforça efeitos como a inflação. Segundo ele, há efeitos imediatos sobre o consumo o que, por sua vez, influencia o Produto Interno Bruto (PIB). 

“Todo mundo endividado faz com que o consumo caia, isso é menos imposto, menos emprego, menos renda. É importante que haja um endividamento pequeno para que a roda da economia rode e que você possa viver pelo menos com dignidade”, acentua. 

Recuperação do mercado de trabalho 

Olhando especificamente para o Ceará, Izis considera que o mercado de trabalho também pode ter relação com o endividamento acima da média nacional.  

Tem vagas, mas vagas muito concentradas em salários mais baixos, isso pode influenciar essa questão da inadimplência. Quem tá na informalidade não consegue ter aquela previsibilidade na renda. Não é só inflação, mas perfil do mercado de trabalho responde muito essa capacidade de pagamento

Izis Ferreira

economista na CNC

Ela reforça que esse é um ponto fundamental para que a parcela de cearenses endividados diminua. Para a economista, a volta do setor de serviços e do turismo devem ajudar nessa questão. 

“Pode ser que com essa retomada, principalmente do turismo, pode ser que a gente consiga gerar mais vagas no mercado. A melhora do endividamento está muito ligada à melhora do mercado de trabalho”, explica. 

Inadimplência 

Apesar de o endividamento no País estar em uma trajetória de alta, a inadimplência – ou seja, o número de pessoas que não conseguem pagar as dívidas – segue se forma relativamente controlada. 

Em outubro deste ano, 35,7% dos brasileiros endividados estavam com contas em atraso ou declararam não ter condições em pagar; no mesmo mês de 2020 o número era maior, 38%. 

No Ceará, contudo, mais pessoas não estão conseguindo honrar com as dívidas e estão caindo na inadimplência.  

“O Brasil tem inadimplência sob controle, mas no caso do Ceará, a proporção de família com contas em atraso chegou a 43% e está em trajetória crescente desde o início do ano. Média histórica é de 26%, esse número está muito descolado”, expõe Izis.  

Ela pontua que, quando comparado outubro deste ano com o de 2019, antes da pandemia, o número de famílias cearenses endividadas era 17 pontos percentuais abaixo do de hoje.  

O gerente do Serasa Limpa Nome, Gabriel Cantu, explica que o atraso no pagamento de débitos pode levar à negativação do nome, dificultando o acesso do consumidor a crédito a curto, médio e longo prazo. 

“O processo do consumidor chegar na inadimplência envolve quatro etapas: atraso de contas, cobrança do débito pelo credor, prazo e informe da negativação e por fim o nome negativado. Esse período pode levar meses, desde o atraso até o nome aparecer nos birôs de crédito”, esclarece. 

Cartão de crédito  

O cartão de crédito é o meio pelo qual as pessoas mais se endividam. No Brasil, 84,9% dos endividados tem dívidas nessa modalidade de crédito e, no Ceará, o número chega a 91,3%.  

Izis explica que a maior tendência ao cartão diz muito sobre o porquê de as famílias estarem se endividando. Esse tipo de crédito é mais utilizado para contas de curto e curtíssimo prazo e comumente entra como um complemento do orçamento quando o dinheiro do mês já acabou.  

Ela acrescenta que o aumento no uso do cartão de crédito neste momento também tem a ver com a volta do setor de serviços, já que esse é um meio de pagamento comumente utilizado por famílias de renda mais alta para o consumo. 

A possibilidade de parcelamento e a ausência de juros no caso de pagamento completo da fatura também são atrativos para os consumidores. Vicente Férrer reitera, contudo, que essa ferramenta pode trazer problemas ao orçamento financeiro. 

As pessoas continuam usando o cartão de crédito de forma errada. Ele é muito positivo desde que a pessoa pague na integralidade a dívida do mês. Quando paga o mínimo cai no rotativo que tem taxas muito elevadas. 

Vicente Férrer

economista do Corecon

O estudante Roger Holanda, de 22 anos, começou a se endividar justamente quando contratou o seu primeiro cartão de crédito e começou a fazer compras com o dinheiro que recebia no estágio. 

“Eu ficava naquela de ‘posso passar no cartão, posso pagar depois’. Vira aquela bola de neve, vai passando, fica mais difícil de pagar porque fica sem dinheiro”. 

Hoje sem nenhuma fonte de renda, ele conta com a ajuda da família para conseguir quitar os cerca de R$ 600 que estão pendentes de faturas em atraso. 

Questão comportamental 

Para a mentora Lidiane Medeiros, de 36 anos, o endividamento veio como uma questão cultural, de família. Com a facilidade de obter crédito consignado, os pais, funcionários públicos, consideravam esse tipo de empréstimo como parte da renda mensal; um costume que ela também adquiriu quando seguiu a mesma carreira. 

Hoje ela lida com a negociação de mais de R$ 50 mil em débitos e tenta passar para a filha, a pequena Ester, de 8 anos, uma noção diferente sobre dinheiro. Mas ela reconhece que não é fácil.  

Foto:
Kid Júnior/ SVM

Mesmo já tendo a vontade de sair da situação de endividamento, ela ainda acumula dívidas recentes, feitas para recompor o salário diante da perda do poder de compra e de aquisições feitas por estresse durante a pandemia 

“Tinha um descontrole emocional. Era uma urgência de ter logo as coisas, falta de pensamento no futuro. Quando chegava a fatura, era um estouro, eu não tinha o discernimento de encarar, parar e pensar o que eu preciso melhorar. Eu pedia outro empréstimo porque eu queria ter minhas coisas”, relembra. 

Roger Holanda relata uma situação parecida. Às vezes, o impulso faz com que ele compre mesmo sabendo que não tem como pagar.  

“Gasto muito com sapato e roupa. São dois itens que muitas vezes mesmo eu não precisando, acabo gastando com isso. Principalmente camisa de time, mesmo não precisando acabo comprando porque tenho limite, acho a camisa bonita e vou no impulso”, conta. 

A economista e educadora financeira Juliana Barbosa reconhece que o comportamental é bastante relevante no que diz respeito às causas do endividamento. 

“A nossa relação com o dinheiro tá muito ligada ao nosso comportamento, não só são números, se fossem só números a gente gastaria só o que a gente ganha. Todos nós gostamos de comprar, viajar ou mesmo consumir. A gente sempre está ansiando para comprar alguma coisa, a palavra de ordem é comprar, quando devia ser guardar”, elucida. 

Acolher esse fator humano que leva às dívidas é um primeiro passo, que deve ser seguido por planejamento e organização para que se consiga ter uma vida financeira mais equilibrada. 

Educação financeira e planejamento 

Juliana Barbosa ressalta que fazer dívidas, em si, não é um problema. Qualquer compra feita no cartão de crédito pode ser considerada uma dívida, mas essa ferramenta pode ser útil no orçamento financeiro se bem utilizada. O problema é quando o endividado passa a ser inadimplente. 

Ela reforça que, com planejamento financeiro, é possível utilizar mesmo opções de crédito sem perder o controle. O ideal, para começar, é conseguir ter uma noção clara do que entra de gastos e receitas no orçamento mensal. 

“É preciso ter um orçamento doméstico mostrando custos fixos, o que se gasta com supérfluo, passeio, financiamentos, empréstimos. Realmente entender como está a situação financeira, porque aí sim você vai saber se tem espaço para novas compras”, indica. 

O controle deve ser feito da forma que for mais fácil para o indivíduo: no papel, em planilhas ou em um aplicativo. O importante nesse caso é pensar a longo prazo.  

Esse orçamento pode ser feito de forma individual por quem mora sozinho, mas toda a família deve ser incluída caso more na mesma residência. Todos na casa devem ter a consciência da importância de não gastar mais do que se tem.  

O momento da elaboração do orçamento é importante inclusive para cortar gastos que eram desnecessários e conseguir poupar. 

É o que tem feito Samara Benvindo, que pretende quitar todas as dívidas adquiridas durante a pandemia no ano que vem. A família, composta por 5 pessoas, passou a anotar gastos e conseguiu reduzir pela metade a conta de energia na residência. 

Legenda:
A empresária Samara Benvindo trouxe para casa o estoque da loja que precisou fechar em razão da pandemia

Foto:
Kid Júnior

“Eu comecei a olhar isso muito de perto. Não é uma escassez, isso é amor ao dinheiro. Isso é controle, isso é prosperidade, isso é ser próspero. Eu estou controlando tudo, tudo, tudo que eu posso controlar, cada centavinho, cada coisinha se eu puder economizar eu economizo”, conta. 

Luz no fim do túnel 

O planejamento financeiro é o caminho para evitar a inadimplência e essa mesma rota também deve ser seguida por quem já caiu nas dívidas. O primeiro passo para quem está com débitos atrasados é parar e olhar para isso, mesmo que seja difícil. 

Para Lidiane Medeiros, essa foi a pior parte, mas foi essencial para que ela conseguisse encontrar uma saída. 

“Primeiro foi a pior parte, que foi eu anotar tudo o que eu devia. Eu não queria nem ver, não queria nem saber quanto era. Foi quando eu parei tudo e fui anotar que eu consegui”, recorda.  

Tendo uma noção clara de quantas e quais dívidas existem, o coordenador do Serasa Limpa Nome, Gabriel Cantu, recomenda que os primeiros débitos a serem resolvidos devem ser os que tenham juros maiores. A partir daí, é possível partir para a renegociação. 

“É preciso ficar de olho em oportunidades que as empresas oferecem para negociar dívidas. A Serasa faz várias campanhas para que as pessoas possam sair da inadimplência por meio do Serasa Limpa Nome. Os acordos são fechados em menos de 3 minutos e a consulta de dívidas pode ser feita de forma gratuita”, convida. 

Ele incentiva que a renegociação é indicada principalmente para quem tem dívidas mais antigas. É comum que os credores ofereçam bons descontos nesse tipo de acordo.  

Juliana Barbosa chama atenção que a promoção seja boa na hora de renegociar, é importante ter sempre em mente o orçamento disponível para que o consumidor não acabe caindo novamente na inadimplência por não conseguir honrar com as parcelas. 

“O segredo maior é ter esse controle, anotar de fato gastos e receitas. Não só pensar nas dívidas, mas olhar mais adiante para separar um valor para poupar e não viver só na dependência daquele mês”, diz. 

Outra dica dada pela educadora financeira é priorizar débitos que tenham bens como garantia, para evitar a perda deles por falta de pagamento.  

Passo a passo para participar do Serasa Limpa Nome

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Por , em 2021-11-10 14:00:44


Fonte diariodonordeste.verdesmares.com.br

Redação

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