Engenheiro com paralisia cerebral cria aparelhos para pessoas com deficiência usarem computadores | Ceará – Jornal Notícias do Ceará

O engenheiro Júnior Prado, de 31 anos, parou para pensar nas próprias dificuldades quando criança e decidiu desenvolver soluções. Desde a graduação, quando ingressou no curso de engenharia de computação, da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Sobral, ele vem desenvolvendo — e avançando — na produção de aparelhos que auxiliam pessoas com deficiência na utilização de computadores.

Da necessidade particular pela paralisia cerebral, foram produzidos três inventos que atuam de forma complementar: um mouse criado a partir de uma impressora 3D (o “mouse adapt”), um editor de textos e um teclado adaptado, que funciona com sinais eletromiográficos, emitidos pelos movimentos intencionais de escrita da mão.

Atualmente, fora da universidade após concluir o mestrado, Júnior desenvolve a quarta versão do “mouse adapt”. Embora o instrumento ainda esteja em fase de teste, o objetivo é que um usuário possa utilizar o computador ao contrair um músculo do antebraço ou da parte superior do braço.

“Assim que a gente completar essa última versão – é como se ele já estivesse em um estágio bem mais avançado do que esse sistema eletromiográfico – estamos fazendo de tudo para que ele deixe de ser um projeto e passe a ser um produto. Que ele tenha custo menor e possa oferecer a pessoas com deficiência uma nova forma de acesso ao computador”, ressalta Júnior.

Júnior Prado nasceu com paralisia cerebral e resolveu, como voluntário na Apae, inventar dispositivos para ajudar pessoas com deficiência. — Foto: Arquivo pessoal

O engenheiro conta que um mouse com funcionalidades menos desenvolvidas que a versão produzida no Ceará custa, atualmente, cerca de R$ 2.100 (produto do mercado internacional). Pelas suas contas, as despesas do dispositivo criado em Sobral, considerando impressão e componentes de formação, custa por volta de R$ 180. Ou seja, um valor 12 vezes menor do que o praticado no mercado.

O protótipo já testado e utilizado como invento pelo Grupo de Tecnologias Assistivas e Educacionais (TAE) da UFC faz com que o computador reconheça quatro movimentos na mão. Esses sinais são emitidos e permitem ao usuário selecionar um caractere, escrever, apagar e mudar o caractere (letra, número ou pontuação). O editor de texto, conforme Júnior Prado, funciona como uma espécie de roleta. (Assista no vídeo abaixo.)

Engenheiro mostra como funciona editor de texto por meio de sinais da mão

Os materiais, porém, até o momento, não foram patenteados por falta de apoio financeiro, mas continua sendo estudado por outros estudantes do mestrado em Engenharia Elétrica e de Computação da UFC.

“Ainda falta esse pequeno passo para transformar esse projeto em um produto comercializável, falta o apoio de uma empresa que se interesse pelo produto, mas estamos na luta”, afirma o engenheiro, que viu tudo surgir a partir dos trabalhos desenvolvidos em uma organização social.

Protótipo do “mouse adapt” foi criado com materiais recicláveis. — Foto: Arquivo pessoal

Foi na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Sobral que surgiu a primeira ideia na cabeça de Júnior para o desenvolvimento dos dispositivos. Isso porque, além de engenheiro, ele também é ator e via de perto as suas dificuldades refletidas nas pessoas que ali estavam sendo atendidas.

Segundo ele, em 2015, a Apae foi contemplada com financiamento do projeto Criança Esperança. A ideia da associação era construir um laboratório de informática adaptado para as necessidades dos alunos.

Embora o dinheiro estivesse disponível, “no Brasil, não se fabricava tecnologias assistidas voltadas à computação, então todos os produtos foram comprados importados e, por isso, acabou saindo com um custo mais alto. Mas aquilo foi uma revolução na vida dos alunos”.

Quando ele percebeu que poderia criar um projeto financeiramente acessível com o objetivo de proporcionar melhorias a pessoas com mobilidade reduzida nos membros superiores, ele levou a ideia para o seu orientador e passou a desenvolvê-la na graduação. Tudo aquilo ainda rememorava as dificuldades que passava durante os estudos.

“Em todo o processo de escola, faculdade, eu pude observar a necessidade de adaptações. Sempre tive dificuldade em escrever, na época, meus pais não tinham condição de comprar computador; as avaliações, os exercícios eram todos adaptados. Aquilo começou a despertar em mim essa ideia de que muitas atividades que as pessoas com deficiência podem e devem realizar, às vezes não acontecem por falta de adaptação”, lembra Júnior.

Mas, se depender dele, pelo menos o acesso a um computador vai, cada vez mais, melhorar a acessibilidade.

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Por , em 2021-11-13 06:00:44


Fonte g1.globo.com

Redação

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